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Saúde mental no esporte

Atletas desistem de competições e priorizam a saúde mental

Grandes nomes do esporte priorizam a saúde mental

Simone Biles desistiu de participar das Olímpiadas de Tóquio pela sua saúde mental. Foto: Reuters

Manaus (AM) – Acostumados a treinar incansavelmente e com o incentivo de serem os melhores, os atletas por muitas vezes são vistos como inabaláveis e a saúde mental no esporte é deixada de lado.

O preparo físico não é a única coisa que o atleta tem que correr atrás. A ligação mente e corpo é a principal fórmula para vencer.

A percepção da “fórmula mágica” do campeão, por vezes, vem tarde demais. Muitos levam em consideração apenas o treinamento físico, mas quando a pressão da competição vem, os atletas percebem que a preparação mental é tão importante quanto a física. 

O Em Tempo relembra casos de grande competidores que avaliaram e decidiram pela saúde mental.

Desistência de grandes nomes

Esta realidade ficou evidente durante as competições das Olimpíadas de Tóquio, em 2021. Um dos nomes mais conhecidos e aguardados da maior competição do esporte, a ginasta americana Simone Biles, desistiu de competir para cuidar da saúde mental. 

Foto: G1

A notícia pegou a todos de surpresa. Simone é a melhor do mundo, um nome que sobressaiu-se nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, e que prometia voos ainda maiores em Tóquio. 

A pressão é uma das principais características do esporte. Ela incentiva a vencer, mas também pode trazer diversos malefícios para a saúde mental dos atletas. Foi exatamente isso o que aconteceu com Simone. Se sentiu pressionada para ser a melhor do mundo, e apesar da capacidade, o corpo e a mente não estavam ligados. 

Naomi Osaka também decidiu priorizar a saúde mental. Foto: Getty Images

Em 2021, a tenista número 2 do mundo, a japonesa Naomi Osaka, também preferiu priorizar a saúde mental, ao invés de participar da maior competição mundial de tênis, Roland Garros. 

Á época ela criticou a organização do evento e disse que retornaria ao circuito quando o ambiente fosse “mais saúdavel”. 

Após um ano de altos e baixos, Gabriel Medina desistiu da Liga Mundial de Surfe para se cuidar. Foto: Reprodução

Em janeiro de 2022, o mesmo aconteceu com um brasileiro e campeão mundial. O surfista Gabriel Medina desistiu  de disputar as duas etapas do Havaí que abrem a Liga Mundial de Surfe (WSL). A justificativa foi para cuidar da saúde mental.

O atleta passou por um ano de 2021 de altos e baixos. Teve seu nome envolvido em polêmicas e precisou lidar com problemas familiares. Tudo isso afetou diretamente a ligação corpo e mente. 

Ao passar pelos problemas, ainda superou a pressão de sair das Olimpíadas de Tóquio sem uma medalha e conquistou o tricampeonato mundial.

Em suas redes sociais, o atleta alegou que precisa preservar sua saúde mental e seu corpo, após uma lesão no quadril. Tricampeão mundial disse ter chegado ao seu limite para tomar a “decisão mais difícil da vida”.

Psiquiatra analisa cenário

A ligação mente e corpo é o segredo para se manter saudável. Foto: Divulgação

Que a saúde mental é fundamental na vida de qualquer pessoa, isso não é novidade. Mas na vida do atleta, influencia significativamente no desenvolvimento esportivo. 

A busca do equilíbrio emocional, concentração, autoconfiança, e motivação que colaboram para um treino e ambiente de competição saudáveis. 

A psiquiatra Zandra Valdez destaca que um ambiente em que as pressões são recebidas sem um acompanhamento, ocasiona em doenças mentais que afetam diretamente o desempenho do atleta.

“A saúde mental requer um ambiente propício para poder se manter e no esporte as pressões das competições podem desencadear doenças mentais”, revelou em entrevista.

A pressão para vencer pode não ser a única causa para as doenças mentais. Uma predisposição genética também pode contribuir para que a saúde mental se agrave.  

“Qualquer ambiente pode ser patógeno para o indivíduo quando ultrapassa a fronteira de sua sanidade. E muitas vezes, as doenças mentais necessitam desse ambiente aliado a uma predisposição genética”

Acostumados a vencer?

Foto: Reprodução

A derrota seria o pior sentimento que o atleta poderia sentir na sua carreira? Ao longo dos treinos, o incentivo é de que o atleta deve vencer a qualquer custo. Perder é uma situação que faz parte, mas não é o foco da competição. 

O incentivo para sempre ser um vencedor, ocasiona no atleta um sentimento de intolerância a qualquer outra situação que não seja ele o grande campeão do resultado final. 

A psiquiatra Zandra conta que os atletas têm a noção de que podem perder. Porém, esse sentimento é reprimido e visto como uma coisa ruim. 

O sentimento se torna um gatilho que a qualquer momento pode ser disparado e desenvolve sintomas de ansiedade e depressão. 

“Os atletas são preparados para competir, e isso inclui perder. Porém, frequentemente, isto é sentido de forma intolerável como também pode se tornar um gatilho para vir a desenvolver sintomas de ansiedade e/ou depressão, entre outras patologias”, destaca a psiquiatra.  

Como manter a saúde mental no esporte

O acompanhamento psicológico em paralelo a preparação física é a principal prevenção e tratamento para os riscos da falta de saúde mental no meio. 

A psiquiatra recomenda uma equipe em que trabalhe em conjunto e que busquem manter a sanidade mental do atleta. 

“Para a prevenção se recomenda assistência psicológica onde se incluem médicos especialistas, em tratamento e prevenção de doenças, como o serviço de psiquiatria, de psicologia, nutrição, transtornos do sono, entre outros”, recomenda Zandra.

O ato de desistência de Simone, Naomi e Gabriel exigiu mais coragem e força do que muitas competições que os atletas já passaram. 

Demonstrar fraqueza não é incentivado no esporte e a atitude de se priorizar, invés de tentar sempre vencer, demonstra a busca pela melhora de se tornar um atleta e ser humano melhor. 

“Nunca desistir de melhorar faz parte da extraordinária capacidade que o ser humano tem de se reinventar”, finaliza a psiquiatra Zandra Valdez.

Edição Web: Bruna Oliveira

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